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Nós também estamos numa janela. E podia ser na Palestina

“Ela estava no terceiro andar e então ele subia nos canos, se arranjava de algum jeito e subia na janela todo dia e ficava sentado olhando para ela e ela para ele – um olhando um para o outro. Ela morreu com ele olhando pela janela.”

Jovem escalou até a janela de onde podia ver sua mãe doente de Covid — Foto: Reprodução/Twitter/Mohamad Safa
Jovem escalou até a janela de onde podia ver sua mãe doente de Covid — Foto: Reprodução/Twitter/Mohamad Safa

“Demonstramos que receber toque de outra pessoa diminui a intensidade com que julgamos cenários negativos. Em situações de perda ou quando acompanhamos alguém em estágio crítico de vida, abraçar e segurar as mãos do outro são nossas ferramentas naturais para oferecer contato visual. Assim como o toque, está na base do desenvolvimento e formação de vínculo”, ele me disse.

Somos filhos, mães, pais, avós e nos enxergamos naquela janela. O luto de um vírus imponente que não respeita qualquer tipo de fronteira, nos igualou no humano, na essência onde não há cor, religião, status, conta bancária. E que nos afronta com a evidência de uma finitude tão vulnerável. Realidade que Jihad contornou com coragem e criatividade.

“Jihad perdeu sua mãe, assim como muitos de nós têm perdido – o abraço, as despedidas, os planos. A história dele é de todos nós. A comoção pode estar associada a percepção de que cada um de nós temos sobre nossa fragilidade. Ou seja, não é só sobre a dor de Jihad, mas sobre a dor de todos nós”, completou Paulo Boggio, que tem estudado o comportamento humano nesta quarentena.

A fala de Jihad a jornalistas, diante da repercussão da foto, é sobre a conexão com o outro, sobre o “estar”: “O que fiz foi algo simples, eu estava com a minha mãe que estava doente e eu estava com ela. Tentei estar com ela de qualquer jeito: na janela, no quarto; o importante era estar ao lado dela”.

Parece simples, mas andava tão complexo e exigente se sentir presente quando a vida ainda não se limitava aos espaços das janelas e varandas.

E o que fazemos com a memória de Jihad e Rasmin? Como honrá-la? Não deixando passá-la sem que imprima uma marca em nós, da mesma forma que estamos tentando lidar com certas dificuldades, em meios a desgovernos e demonstrações oficiais de desprezo pela vida. A minha, a sua, a de qualquer um de nós. A qualquer momento. Sejamos presentes pra além das nossas janelas.

“Para levarmos algo positivo da pandemia, é importante que as memórias e histórias não se percam e que ações concretas sejam implementadas no dia-a-dia de cada um a partir delas. É a tal da esperança prática”, completou Paulo.

Pratiquemos.

Por Aline Midlej – G1

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